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E quem me dera...
Se toda manifestação tivesse Gandhi.
Se toda luta tivesse Ali.
Se toda máfia tivesse Michael Corleone.
Se toda enchente tivesse Noé.
Se toda dúvida tivesse Platão.
Se toda novela tivesse Roque Santeiro.
Se toda fórmula tivesse Einstein.
Se todo conto tivesse Shakespeare.
Se toda fábrica tivesse Willy Wonka.
Se todo jogo tivesse Zico.
Se todo ponto de ônibus tivesse Forest Gump.
Se toda alucinação tivesse Tyler Durden.
Se toda coluna tivesse Veríssimo.
Se toda guerra tivesse Chris Taylor.
Se toda música tivesse Beethoven.
Se todo preconceito tivesse Martin Luther King.
Se toda palavra tivesse Drummond.
E que toda história de amor
Tivesse eu e você
Tipo Eduardo e Mônica...
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Sou de rir pouco
Ainda que conte piadas o dia todo.
Não sou de demonstrar sentimentos
Mesmo sendo bem carinhoso a maioria do tempo.
Não penso em glamour
Não ando com as melhores coisas
Não tenho dinheiro
Mas faço questão de ser cavalheiro ao menos no primeiro encontro.
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Sou desafinado em último grau
Mas adoro música
E tenho a péssima mania de manda-las de todos os tipos e
meios
Só pra falar coisas simples como um bom dia.
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Adoro cultura inútil.
Sou o chato que sempre sabe por que os golfinhos emitem sons
Porque os pássaros têm penas
E que a resposta da vida, universo e tudo mais é 42.
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Sou desatento em ultimo grau
Nunca puxei a cadeira ou fiz um gesto brilhante como abrir a
porta do carro.
Ando amarrotado
Não penteio o cabelo
Nem sigo nenhum outro padrão
Que qualquer outra pessoa normal seguiria.
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Falo e como rápido.
Saio pedindo a conta antes das pessoas acabarem.
Esqueço tudo nos locais
Desde compromissos a coisas óbvias
Mas lembro frases
E o detalhe de tantos momentos
Que ninguém mais lembraria.
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Não tenho foco pra nada
Faço mil coisas ao mesmo tempo.
Cada dia invento uma mania
Um lugar
Um hobby novo
Como ir pra Búzios de carro e voltar no mesmo momento
Tudo pra sair da rotina sufocadora do dia a dia.
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Não me preocupo muito com o amanhã
Vivo o momento.
Sou sonhador
Otimista ao extremo
Do tipo que crê pra ver.
Tenho a péssima mania
De achar que tudo sempre vai ficar bem.
Na verdade eu acho que você nem ia mesmo gostar tanto de mim...
Sou do tipo intenso
Que fala o que pensa
Que faz o que quer
Que fala a verdade
E chego até a sofrer consequências por isso.
Mas também sou do tipo que sei amar.
Que é amigo e companheiro
Que faz declarações
Escreve cartas de amor
Liga de madrugada pra falar que está com saudades
E que sabe
Mesmo com todos esses milhares de defeitos e limitações que a
vida me deu
Transformar quem está do meu lado
Na pessoa mais feliz do mundo
Mas tudo bem
Eu entendo
Vamos deixar como está
Você nem ia gostar tanto de mim assim mesmo...
E você é:
O sorriso mais convidativo.
O abraço mais apertado.
O “conta comigo” mais confiável.
O pra sempre mais sincero.
O obrigado mais gostoso.
A timidez mais escancarada.
O ouvir mais importante.
A opinião mais decisiva.
A inteligência mais sensual.
O beijo mais compatível.
O frio do estômago mais repetitivo.
O querer bem mais religioso.
O pronome possessivo mais desejado.
A paixão mais duradoura.
O amor mais bonito
Que alguém poderia desejar...
Mas você também é...
O ciúme mais desconfiado.
O não estar mais mutilador.
A canção que mais machuca.
A lembrança que não se esquece.
O texto mais melancólico.
O plano mais incerto.
O perto mais complicado.
O não entendimento mais entendido.
A foto mais triste.
A carta no fundo do armário.
A distância mais longa.
O “sei” mais irônico.
A solidão mais conhecida.
A saudade mais doída.
A mais triste história de amor
Já vivida por alguém...
Vivemos no período moderno do “subentendido”
Em que se subtende muito
Mas não se conclui nada...
E assim
O que se quer dizer
Fica sabendo
Nunca é dito.
É solto
Em frases que poderiam falar muito
Mas não dizem.
Com atitudes que poderiam até ser
Mas não são.
Entre desejos que deveriam ser óbvios
Mas ficam obscuros.
Num querer que até poderia dizer que quer
Mas não assume...
Talvez essa confusão até seja proposital
Para jogar o jogo
Não se tomar partido
Ficar em cima do muro
Numa posição confortável do meio termo
Entre o ser e não ser
Entre o que é e o que não é
Entre o que já foi e o que poderia ser.
Para dar a chance
De confundir
Do outro interpretar errado.
E em discussões calorosas
Até se defender de acusações
Entre frases como:
“Você que nunca percebeu”
“Não foi nada disso que eu quis dizer”...
Palavras belas
Mas que no final das contas
Ficam tão subentendidas
Preocupadas em dizer tanta coisa ao mesmo tempo
Que infelizmente
Não acabam dizendo nada.
Coisa chata sabe?
Eu já prefiro ser da moda antiga
O que sente através dos sentimentos
Deseja através dos desejos
E fala através das palavras
Que eu morro sim de saudades...
Do tipo que passa vergonha
Mas pelo menos
Deixa tudo bem claro...
E aí...
Só quando os dias passam nos calendários.
As mensagens não chegam pelos meios possíveis.
Não se ouve “conta comigo” de nenhum lado.
Portas não são abertas com surpresas.
O porteiro não interfona dizendo alguém está subindo.
Comédias passam e se ri sozinho.
Músicas não tocam dizendo nada.
Planos não são divididos.
O carro não para mais na mesma vaga de sempre.
Um espaço gigante sobra na cama.
Nem a noite mais existem sonhos.
“Como foi seu dia” não é questionado.
Sente-se saudades e não se escuta um “também”.
E só a ausência impera
Porque você não aparece...
É que a gente percebe
Que querendo ou não
A vida tá cuspindo silêncio na nossa cara
Gritando que já passou da hora de seguir
Enquanto se espera parado uma felicidade
Que só deveria depender de nós mesmos...
E chegou a hora de recomeçar se...
Já não existe mais brilho nos olhos.
As palavras não te consolam.
Portas se fecham mais que se abrem.
O passado ainda está presente.
Começa-se algo querendo acabar.
Levantar da cama é um tormento.
Rir virou um sacrifício.
O cansaço já não tem prazer.
O triste passa a ser normal.
Sacrifícios são feitos para o nada.
Move-se e não se sai do lugar.
Os resultados não acompanham as ações.
O novo é visto como oportunidade.
“Por que” virou rotina.
Não se conhece músicas novas.
Perspectiva é livro de autoajuda.
O que era divertido já não tem graça.
Sonho é apenas o que se faz dormindo.
Não tem mais graça ser o que se é.
E principalmente
Se o que sempre fez parte da rotina
Hoje em dia já não faz mais sentido...
E na vida a gente tem que dizer não para:
A negatividade.
As palavras engasgadas.
Viver olhando pra trás.
Amar sem ser amado.
O pessimismo.
Parar de não acreditar em si mesmo.
Os dias cinzas.
O que não te faz rir.
A falta de pequenos detalhes.
A inércia.
O comodismo.
A falta de sorrisos.
Os abraços não sinceros.
Os olhares que não se cruzam.
Ficar longe de quem se gosta.
Tudo que não ter faz sonhar.
Principalmente
Parar de ter medo de dizer não
Quando ele realmente precisa ser dito...